Ela conhecia cada detalhe desconhecendo-o. Um amor platônico.
Observava-o todos os dias á distância, no precário café de higiene duvidosa que freqüentava. Ele adentrava sem pretensão o local, diariamente, assim como ela.
Parecia de bem, sério, apesar de às vezes agradecer ao atendente, às vezes não.
A esse fato ela atribuía às rugas na testa. Rugas que testemunhavam a favor ou contra sua cordialidade. Se amenas, suaves, o agradecimento seguido do sorriso singelo viria. Se profundas, intolerantes, quase levavam ao estalar da língua pela demora no atendimento. Demora essa constante, idêntica a dos dias em que quase sorria.
Era, porém, o momento em que o sorriso dela se alargava. Um sorriso interno. Não deixava transparecer. A beleza nas rugas que sulcavam na testa dele, aquele espaço entre as sobrancelhas, embriagava-a, passava o dia adorando-as.
Também havia o cabelo. Fato ao qual ela ligava o trabalho. Dias bons de trabalho eram retratados pelos cachos organizados, logo, sorriso singelo e cachos organizados eram uma ligação óbvia e coerente. Os dias em que os cachos vinham rebeldes, eriçados, ela podia ter a certeza de que o dia fora difícil para ele. O estalar de língua e os cachos embaraçados faziam dele uma pessoa comum, quase atingível.
Nesses dias, os dias dos cachos embaraçados e das rugas, ela tinha que se segurar o dobro para não falar com ele. Não puxar o assunto. O diálogo seria breve, mas ouvir a voz que viria com aquela expressão era tentador.
Sabia que talvez a voz do dia do sorriso gentil não coincidisse com as expectativas. Os ombros relaxados, a respiração tranqüila e a atenção ao jornal local que passava na TV do café demonstravam-no simples. Apenas para ser observado e adorado à distância.
Queria ouvir a voz do dia embaralhado.
Os dias embaralhados, no entanto, dias onde ele transpirava hostilidade pelas rugas, a mandíbula cerrada, os cabelos ensandecidos, os ombros tensos e alinhados, a atenção ao copo de café como se fosse curá-lo de algum mal, eram dias que a faziam perder o fôlego e ganhar coragem.
A combinação rugas, sapatos que não combinavam com o cinto, camisa amarrotada e cabelos com vida própria, bem como aquelas respirações profundas de quem tenta relaxar e não consegue, também eram atraentes. Um dia em que ele dormira mal. Talvez tivesse tido pesadelos, talvez estivesse de ressaca. Tivesse pensando onde a vida o levara, assim como ela às vezes fazia. Era um dia em que ele deliberadamente agia como um grosseiro. Recusava-se a olhar em volta. Recusava-se a deixar o mundo participar do redor dele.
Em algumas vezes ela presenciou combinações diferentes: cabelos rebeldes com sorriso dócil, respiração profunda e olhar perdido. A essa combinação deu o nome de cansaço. Quis mais que nos dias embaralhados, aproximar-se. Conversar com ele, saber de suas angústias, ouvir a voz tranqüila e profunda que viria com a expressão de lábios retesados.
A pior combinação foi o dia do sorriso largo: cabelos arrumados, ombros imponentes, olhos brilhando. Nem por um segundo teve dúvidas, nesse dia o seu cabelo refletia outro fato que não o trabalho. Sentiu-se enciumada, traída. A mão, bagunçando o cabelo, descontraída, estava traindo-a. Ele que ainda sorria, bagunçava os cabelos não por um dia ruim no trabalho, não por motivo algum senão outra mulher. Pediu uma média esse dia, mas já parecia elétrico demais.
Sentiu-se vingada, num dia com cachos arruinados, olheiras profundas, rugas na testa e unhas grandes. O café esfriando, os goles miúdos que ele dava na média não dando conta na batalha contra o ventilador de teto. O sofrimento descrito nas linhas de expressão nos cantos da boca. O queixo trêmulo e os olhos aquosos, mas sem brilho. Quis parar ao seu lado e acariciar as suas costas, seus ombros tão caídos davam-lhe a aparência corcunda.
Preocupou-se, não gostava de vê-lo assim. Sentia falta da desatenção de olhos perdidos na TV, gostava do estalar de língua mal-educado, sentira falta até mesmo dos olhos brilhando e das roupas impecáveis em dedicação a outra.
Queria que ele voltasse ao normal: aquela simplicidade com que o decifrava, pois não poderia imaginar o que afligia aquele desconhecido. Suas suposições eram tantas que preferia não pensar nelas. Queria a obviedade das combinações pré-determinadas. Cachos e rugas, sorrisos e grosserias. Descaso e felicidade alheia.
Queria amá-lo como o amava, do jeito que o amava. Queria que ele ficasse bem.
Num movimento inédito, ele cruzou as duas mãos atrás da cabeça, bagunçando os cachos e abaixando a cabeça sobre o balcão. A expressão inacessível a visão dela. Não tanto quanto a marca em seu dedo. Uma linha reta, marcada pelo sol. Marcada pela falta. Marcada pela perda.
A marca da aliança recém tirada não a deixou contente. Era a garantia que ela tinha de que esse amor iria durar para sempre. Teria ele, sem precisar tê-lo.
Queria o conforto de observá-lo e precisá-lo sem doar-se.
Ela estalou o beiço e bagunçou os cabelos. Sentia as rugas entre as sobrancelhas. Não queria mais sentar-se ali a disposição dos olhos de ninguém. Não queria permitir que o mundo participasse dela agora. Pagou a média fria, que bebera a goles miúdos. Levantou-se e arrumou a camisa mal passada que vestia. Sentiu os lábios retesados, e os ombros tensos.
Saiu pela porta sabendo que já não voltaria.
(Agatha Menezes 01/11/11)